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Percepo da forma
Em todos os objetos que percebemos visualmente, o que mais nos chama a ateno e o que nos parece mais 
importante  a sua forma. Em geral, quando solicitados a descrever um objeto, definimos em primeiro lugar sua 
forma, s depois descrevemos sua cor, seu brilho e, talvez, por ltimo vamos nos referir a um seu possvel 
movimento. Por ordem de importncia, esta  a seqncia que as qualidades de um objeto tm para ns. Mas 
de modo algum corresponde  seqncia da percepo mais elementar  mais complexa. Como veremos no 
captulo 11, referente  percepo de movimento,  este o percepto mais primitivo. Muitos animais apenas 
vem um objeto quando est em movimento. A habilidade que os seres humanos tm em olhar para um objeto 
estacionrio e perceber at os mnimos detalhes de sua forma  reservada apenas aos animais que se 
encontram nas posies mais elevadas na escala filogentica. A habilidade de ver formas estacionrias 
envolve um alto grau de atividade e desenvolvimento cortical. Certamente, envolve algumas das funes mais 
complexas do sistema visual. 
Ao estudar percepo de forma, o pesquisador de comportamento se preocupa basicamente com um problema: 
como  que um objeto em nosso campo visual  com seus inmeros elementos constituintes (ngulos, 
contornos, reas contnuas, padres repetitivos, curvas etc.) projetados pelo sistema tico sobre a retina  
passa a ser visto como um objeto integrado, dotado de significado? Em outras palavras, como emerge a forma 
(no sentido mais amplo possvel), a partir dos elementos constituintes do objeto? Este problema nico pode 
receber explicaes em vrias abordagens, num primeiro instante completamente diferentes, mas que talvez se 
unam, um dia, sob uma teoria nica. Aqui abordaremos apenas duas linhas de ataque ao problema de 
percepo (viso) de forma: uma tomando 
como ponto de partida recentes descobertas fisiolgicas a respeito do sistema visual, e outra, uma teoria clssica, a teoria 
da Gestalt. Esta ltima  tradicionalmente considerada a psicologia da forma por excelncia, tendo constitudo uma escola. 
Nascida na Alemanha no incio do sculo XX, com Max Wertheimer, Kurt Koffka e Wolfgang Khler, em oposio ao 
behaviorismo dos Estados Unidos, mantm adeptos at os dias de hoje. 
7.1. Neurofisiologia da percepo de forma 
A imagem luminosa projetada pela crnea e cristalino sobre a camada de receptores  primeiro elo neural do sistema visual  
apenas representa um padro claro-escuro sem significado algum. Vamos neste momento deixar de considerar os matizes 
(cores), uma vez que a percepo de forma pode ser entendida totalmente desvinculada da percepo de cores. (Alis, o 
prprio sistema visual faz esta separao.) 
O padro claro-escuro (a imagem) estimula diferencialmente os receptores, de acordo com a iluminao que cai sobre cada 
receptor e seus vizinhos. Esta ltima expresso  e seus vizinhos   extremamente importante. Na verdade,  a chave 
da percepo de forma: se cada receptor reagisse somente  intensidade da luz que cai sobre ele mesmo, jamais poderia ser 
extrada alguma informao a respeito do conjunto de elementos do objeto. O objeto como um todo nunca poderia ser 
percebido. Mas se a resposta de cada receptor depende tambm da iluminao incidente sobre os receptores vizinhos, 
obtm-se informao da parte e do todo, pois a resposta neural do receptor ser diferente se a iluminao a seu lado for 
totalmente diversa (mais brilhante ou mais escura), determinando um contorno, ou se a iluminao  exatamente igual, 
determinando, portanto, uma rea homognea. 
Esta atuao recproca entre neurnios no sistema visual no se limita aos receptores e outros neurnios da retina, mas se 
verifica tambm entre os neurnios de todos os elos de integrao do sistema visual. J no segundo neurnio aps os 
receptores  as clulas ganglionares , mas ainda na retina, pode-se verificar nitidamente o incio da percepo de forma. Foi 
demonstrado que, em retina de gatos, as clulas ganglionares j diferenciam linhas retas de diferentes inclinaes. O mesmo 
ocorre ao nvel do corpo geniculado lateral, onde existem neurnios que respondem, de forma muito ntida, a linhas em 
diferentes orientaes. 
Investigando os neurnios do sistema visual do crtex visual de gatos (crtex estriado, rea 17), Hubel e Wiesel 
encontraram neurnios que respondem a caractersticas cada vez mais especficas de forma. Chamaram a estes neurnios de 
simples ou complexos, de acordo com a especificidade a que respondiam. Ao nvel das reas do crtex pr-estriado 
(reas 18 e 19), que so elos na integrao da informao visual, foram encon 104 
105 
tradas clulas, muitas vezes denominadas de super e hipercomplexas. Respondiam a estmulos mais 
especficos ainda, isto , no s a linhas e bordas, mas j impondo restries ao comprimento mximo das 
linhas. E claro que uma linha com um comprimento limitado ainda no  uma forma ou um objeto, como o 
vemos no dia-a-dia. No entanto, um segmento de linha j constitui um elemento que compe uma forma. Sem 
dvida, aponta para a maneira como o sistema visual consegue extrair, de um estmulo visual dotado de forma 
complexa, os elementos constituintes para proceder  anlise do percepto. E importante notar tambm que, 
quanto mais complexas as clulas neurais do sistema visual, isto , quanto mais especficos devam ser os 
estmulos visuais para que ocorra uma reao mxima da clula, maior  seu campo receptivo na retina. 
Por campo receptivo, entendemos o conjunto de receptores que se conectam a um neurnio do sistema visual, 
em qualquer um dos nveis de integrao da informao visual, O campo receptivo corresponde a uma rea da 
retina, sobre a qual se projeta a imagem de uma regio especfica do campo visual. Deste modo, se os campos 
receptivos se tornam maiores para os neurnios visuais mais complexos, estes respondero a partes maiores 
do campo visual. Isto significa que, para perceber a forma em causa, h uma dependncia cada vez menor de 
localizar o objeto no campo visual. O significado  realmente adaptativo, pois uma rvore deve ser reconhecida 
como tal, independentemente de onde esteja no campo visual, isto , da rea especfica da retina sobre a qual  
projetada a imagem desta rvore. 
Outros pesquisadores, dentre os quais o brasileiro Rocha Miranda, estudando o sistema visual de macacos, 
procuraram neurnios visuais num nvel de integrao ainda mais elevado que o crtex estriado e pr-estriado, 
ou seja, no crtex nfero-temporal. Enquanto os crtex estriado e pr- estriado ainda correspondem a reas 
exclusivamente visuais, isto , todos os seus neurnios possuem funo visual, o crtex nfero-temporal j , 
nitidamente, uma rea de integrao poli-sensorial, na qual ainda podem ser encontradas muitas clulas 
visuais. Nesta rea foram encontradas clulas que emitiam sua resposta mxima diante de estmulos visuais 
extremamente especficos e complexos, como, por exemplo, uma pata de macaco. A pata de macaco podia ser 
apresentada com igual efeito em qualquer parte do campo visual e em tamanhos diversos, mostrando que a 
clula era responsvel apenas pela viso da forma do objeto e no de sua localizao no espao ou de seu 
tamanho. J a posio dos dedos da pata e a direo em que apontavam influenciavam a intensidade da 
resposta deste neurnio. Estas alteraes correspondiam a uma mudana da forma do estmulo. 
Pode-se, pois, conjecturar que o circuito neural visual  arquitetado de maneira a, inicialmente, desdobrar as 
imagens visuais em linhas de diferentes inclinaes, depois limitar o comprimento das linhas, combinan do-a 
entre si, at que cheguem a combinaes quase nicas, como uma pata de macaco ou, at, a face especfica do 
experimentador. Se, de um lado, j podemos entender como se forma, da combinao de vrias clulas simples, 
uma de campo complexo, por Outro lado ainda nos so totalmente desconhecidos os circuitos neurais para 
obter as combinaes mais especficas. Entretanto, inmeros trabalhos de pesquisa da atualidade abordam o 
problema. 
Vamos recordar: da simples projeo da imagem tica (luminosa) sobre os receptores da retina,  extrada a 
forma como um todo, pelas sucessivas convergncias da informao, gerando combinaes (padres) nicas. 
Sobreposta a esta convergncia existe tambm uma divergncia do fluxo de informao visual. A convergncia 
se evidencia pelo fato de que o objeto, como um todo, estimula um grande nmero de neurnios da retina e, ao 
nvel do crtex nfero-temporal, neurnios individuais so responsveis pela percepo da forma deste objeto. 
Por outro lado, devido  divergncia, nos primeiros elos de integrao, o local de estimulao da retina  
importante. No entanto, nos nveis corticais superiores, a localizao j no importa mais. Na verdade, a 
divergncia  muito maior que a convergncia, pois o nmero de receptores na retina  bem inferior ao nmero 
de neurnios visuais no crtex visual e no crtex de integrao poli-sensorial. 
Na figura 7.1 esto representadas, esquematicamente, a convergncia e a divergncia neural do sistema visual, 
que leva  anlise e  percepo integral das formas. 
106 
107 
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7.2. A percepo de forma pela teoria da Gestalt 
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a eles. 
Esta segunda abordagem, que procura explicar como ocorre a percepo de formas,  totalmente oposta  
primeira, pois no parte de dados fisiolgicos do sistema visual mas sim, partindo de perceptos de formas, 
procura, pela formulao de certas regras, mostrar como se chegou 
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A teoria da Gestalt  bastante conhecida daqueles que estudaram histria da Psicologia. Certamente, tomaram contato com 
as leis e princpios da Gestalt para a percepo de forma. De imediato, parecem muito bvios e explicativos. Mas, em 
geral, no  explicitado o que realmente sigiiificam para o problema da percepo de formas, assim como o formulamos no 
princpio deste captulo. 
O que preocupou os psiclogos da Gestalt foi: como, a partir de elementos isolados, poderia ser percebido um todo que 
representava algo de novo, isto , no a simples soma das partes? Como, das partes, pode surgir um todo com um 
significado prprio? Como este todo pode se impor mais ao sujeito que as partes? Foi para responder a estas perguntas 
que foram formuladas as leis da Gestalt. So leis a posteriori, ou seja, sempre que era possvel se perceber um 
determinado todo, verificava-se que seus elementos guardavam entre si uma certa relao. Os psiclogos da Gestalt 
acreditavam que havia, nos organismos, algo (uma estrutura representativa das leis da Gestalt) que os levava a organizar as 
partes de certo modo. Obviamente, as leis da Gestalt no podem, na maioria das vezes, explicar a percepo dos elementos 
no percepto total. Seria como que postular, para estes elementos, a existncia de um mecanismo pr-programado de 
percepo. 
A lei bsica que governa a percepo de uma forma, segundo a Gestalt,  a Lei da Boa Forma ou Lei da Pregnncia. 
Todo objeto  visto de modo a apresentar uma forma harmoniosa, boa, estvel, que se imponha, que seja mais 
regular, mais simtrica ou mais simples. Para tanto, a Lei da Boa Forma pode ser dividida numa srie de leis secundrias 
que regulam o agrupamento dos elementos, a fim de que a forma total seja boa. Na verdade, estas regras pouco ajudam o 
pesquisador. O que realmente dir se uma forma  boa ou no  seu efeito sobre o observador. As principais regras que 
levam a uma boa forma so as seguintes: 
1. agrupamento por proximidade  elementos prximos uns aos outros parecem fazer parte de um mesmo todo; 
2. agrupamento por similaridade  elementos semelhantes ou iguais parecem fazer parte de um mesmo todo; 
3. boa continuidade  elementos que esto na mesma direo de partes do padro regular so a ele integrados, dando 
continuidade a este padro; 
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108 
109 
4. fechamento  os elementos so agrupados de modo que o todo forme uma figura fechada. 
A figura 7.2 ilustra, atravs de exemplos clssicos, estes princpios da Gestalt. Sua insuficincia para explicar a percepo 
de uma forma complexa, como a pata de um macaco, parece bvia. Para um estudo mais pormenorizado da percepo, sob 
o ponto de vista da Gestalt,  interessante combinar estes vrios princpios e observar a rivalidade entre eles. A figura 7.3 
ilustra a rivalidade entre o princpio de proximidade e de similaridade: na medida em que os elementos semelhantes se 
afastam um do outro, deixa-se de perceber colunas de elementos iguais para perceber fileiras de elementos diferentes, mas 
prximos entre si. Este exemplo mostra como as leis atuam em conjunto, proporcionando a percepo de um padro global. 
H uma terceira maneira de analisar a percepo de formas, sem reduzir o sistema visual ao nvel fisiolgico, nem enquadrar 
em princpios ou leis as maneiras que temos para agrupar elementos de um percepto: 
verificar como, de modo geral, ocorre a percepo de uma forma, quando um observador olha para um objeto. 
Um elemento bsico necessrio para a percepo de uma forma visual  a presena de um contorno. Este poderia ser 
definido como uma variao, ou alterao abrupta de luminncia, em nosso campo visual. Uma rea completamente envolta 
por um contorno, em geral  vista como uma forma distinta (ou figura). Contornos, ou seja, variaes repentinas de 
luminncia no campo visual, so necessrios para que ocorra percepo de qualquer forma. So bastante conhecidos os 
estudos feitos com campos homogneos, muitas vezes designados pela palavra alem Ganzfeld, nos quais o sujeito no 
percebe coisa alguma. Por exemplo, bolas de pinguepongue so timos difusores de luz. Permitem que nossos olhos 
recebam uma iluminao homognea, sem a possibilidade de vermos formas ou contornos. Se cobrirmos nossos olhos com 
metades dessas bolas e olharmos para uma luz vermelha, verificaremos que esta cor se esvanecer, em poucos minutos, 
tornando-se um campo incolor. Se sobre cada bola traarmos uma linha escura, introduzindo, portanto, um contorno em 
nosso campo visual, a cor se manter por muito mais tempo. Na verdade, somente desaparecer quando a prpria linha se 
dissolver no campo homogneo. A cegueira provocada por campos extensos de neve no  nada mais que um exemplo 
natural deste fenmeno. 
7.3. O contorno como elemento constituinte da forma 
c d 
Figura 7.2. Exemplos de princpios de Boa Forma da Gestalt. a) Por agrupamento, os pontos so reunidos e separados em 
quatro grupos distintos. b) Por similaridade, o quadrado de elementos (visto como um todo por agrupamento)  separado 
em quatro quadrados menores, cujos elementos se juntam por similaridade. c) A boa continuidade faz o observador ver uma 
figura fechada e uma linha curva. d) As trs figuras so vistas como um crculo, quadrado e tringulo pela lei do fechamento 
que faz o observador ignorar as interrupes nos lados destas figuras. 
ELILILILIEI 
iii 
DE LI LI 
Figura 7.3. Pela lei da proximidade devemos ver colunas verticais de elementos. Pela lei da sim ilaridade devemos ver 
carreiras horizontais. E possvel construir esta figura de tal maneira que as distncias horizontais e verticais possam ser 
alteradas. Com uma figura destas, torna-se possvel determinar exatamente a distncia entre os elementos, para que as duas leis 
atuem com igual fora. Neste caso o sujeito ver uma oscilao entre os dois perceptos. 
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Mas por que  necessrio um contorno para que ocorra viso de formas? J respondemos no princpio deste 
captulo. Dissemos que a funo mais primitiva do sistema visual  a percepo de movimento e que, na 
verdade, a percepo de formas estticas  uma conquista da evoluo fi logentica 
Quando h algum contorno em nosso campo visual, a movimentao contnua de nossos olhos (nistagmo) 
transforma a variao de iluminao numa variao temporal para cada stio da retina. Isto ativa o sistema 
visual e permite a viso contnua do contorno, O contorno  
visto como estando parado, devido a processos que veremos no captulo dedicado  viso de movimento. Se 
no houver variao de iluminao no campo visual (isto , um contorno), por mais que ocorra movimentao 
dos olhos, a estimulao visual no adquire uma variao temporal, o que leva  desativao do sistema visual. 
E o que ocorre no Ganzfeld. 
Uma linha pode ser considerada a forma mais simples, isto , um nico contorno que divide o campo visual em 
duas partes. Mas a maioria dos objetos com que nos deparamos no nosso dia-a-dia so compostos por 
unidades integradas, que chamamos de figuras. Figura , portanto, um grupo integrado de contornos. Nossa 
experincia pessoal mostra que a percepo de figuras  bsica. Ou seja, a percepo de uma figura, na maioria 
das vezes, impe-se ao observador, destacando-se do restante a que chamamos de fundo. O livro em cima de 
uma mesa  percebido como uma figura e o tampo da mesa como o fundo; o tampo da mesa, por sua vez,  
figura em relao ao cho. Estas sensaes se impem de maneira inquestionvel. Mas nem sempre o problema 
 to simples, como pode ser visto na figura 7.4, que mostra o clssico exemplo do vaso e dos dois perfis de 
Rubin. Este tipo de figura  chamada de reversvel. Olhando-a por algum tempo, veremos alternadamente os 
dois perfis ou o vaso, isto , alternadamente, partes diferentes de nosso campo visual se tornam figura ou 
fundo. Em outras palavras, s vezes ser figura a regio branca e o fundo ser a regio preta; e s vezes 
acontecer o inverso. Nunca veremos simultaneamente as duas regies como figuras! O contorno, que define a 
figura como dissemos acima, ser visto sempre fazendo parte da regio que, naquele momento, vemos como 
figura. 
Mesmo numa figura reversvel, pois, o contorno continua sendo o determinante da figura. S que o que  visto 
como contorno no  determinado, unicamente, pelo arranjo espacial das bordas, mas tambm por uma 
interpretao visual do estmulo. Existem alguns parmetros que tornam maior a probabilidade de uma parte ser 
vista como figura: a forma se parece mais com alguma coisa  mais fechada,  menor, tem um significado,  
mais brilhante,  simtrica, e assim por diante. Mas a percepo de uma figura reversvel tambm  influenciada 
por algumas variveis, como a expectativa do observador ou o treino que ele possa ter tido. A figura 7.5 
mostra alguns contornos que se impem como figuras, indicando quais os parmetros mais provveis para que 
isto ocorra. 
Figura 7.4. a) O famoso vaso de Rubin, que pode ser visto como sendo um vaso sobre um fundo branco ou como dois perfis 
sobre um fundo escuro. Os dois perceptos podem flutuar entre si, se olharmos demoradamente. Mas tambm podemos querer 
ver um ou outro. b) Figura modificada por Gombrich, enfatizando tanto o vaso atravs das flores como as faces pelas orelhas. Se 
mantivssemos apenas um destes indcios, o percepto correspondente tornar- se-ia bem mais pronunciado e estvel. 
altllb 
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Figura 7.5. Exemplos de princpios que determinam a percepo de formas, a) O losango  visto como figura por ser menor, 
mais brilhante, simtrico e central. b) As colunas escuras 
so vistas como figuras por serem simtricas. e) O perfil escuro  visto como figura por ser dotado de um 
significado. d) O corao  visto como figura por ser simtrico, fechado e dotado de significado. e) O tringulo  visto como 
figura por ser menor. J) O retngulo todo  visto como figura por adquirir o significado de um quadro pendurado num prego. 
a 
b 
e 
112 
113 
Recentemente, receberam muita ateno figuras que no possuem contornos reais, isto , so determinados 
por uma variao abrupta de luminncia, assim como havamos definido contornos no princpio. So figuras 
que possuem contornos subjetivos, pois seus contornos sobressaem de uma regio totalmente homognea. 
As figuras 7.6 e 7.7 mostram alguns exemplos. E fcil verificar que os contornos subjetivos podem ser retos, 
curvos, podem aparecer numa regio clara ou escura e delimitar uma figura com ou sem significado. Na 
verdade, ainda no se conhece exatamente o mecanismo que faz surgirem os contornos subjetivos. Supe-se 
que, de alguma forma, o mecanismo de percepo de contornos  ativado pelos elementos contidos no padro 
da figura, eliciando contornos subjetivos. Normalmente, so os contornos que determinam a figura. Aqui, no 
entanto,  a figura que determina os contornos. Neste fato, provavelmente, reside a explicao de sua origem: 
trata-se de figuras to bvias, que se impem ao sujeito. Este v contornos inexistentes, mas que deveriam 
existir para completar a figura. Os contornos subjetivos guardam muitas propriedades dos contornos 
verdadeiros, como pode ser visto na figura 7.8. 
a 
Figura 7.6. As figuras a e b mostram respectivamente contornos subjetivos claros e escuros. Observe que o tringulo formado 
pelos contornos subjetivos em ambos os casos parece estar  frente, num outro plano. Ele parece mais branco em a e mais preto 
em b. At hoje no existe uma explicao convincente e definitiva sobre o mecanismo que nos leva a ver contornos subjetivos. 
Figura 7.7. Alguns exemplos curiosos de contornos subjetivos, a e b) Estes dois exemplos de figuras formadas por contornos 
subjetivos mostram que estes tambm podem ser curvos, isto , so adequados ao contexto e no seguem uma regra de menor 
distncia. c) O fenmeno dos contornos subjetivos no est limitado a figuras geomtricas simples: no caso,  formado o 
contorno de uma pra. d) Esta figura mostra claramente que os contornos subjetivos no podem ser considerados um simples 
prolongamento das linhas formadas pelos crculos interrompidos, e) H tambm contornos subjetivos que no formam uma 
figura fechada. J) Aqui ocorre a formao de um contorno subjetivo circular, sem haver elementos circulares formadores. 
Observe que o disco branco formado pelo contorno subjetivo parece mais brilhante que o disco formado pelo contorno real. 
4y0 
Figura Z8. Dois exemplos que mostram que os contornos subjetivos agem como linhas reais. Em a, a iluso de Poggendorff, que 
faz as linhas oblquas parecerem desencontradas,  provocada pelas duas linhas subjetivas paralelas induzidas pelos trs 
semicrculos negros. Em b, a iluso de Ponzo, que faz a linha vertical direita (prxima ao vrtice) parecer mais longa que a 
esquerda,  produzida dentro de um tringulo de contornos subjetivos. 
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